“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


1 de jul de 2010

Sabor de saudade...


Queria ter imagens de meus cabelinhos loirinhos, à época muito finos e curtinhos, mas o que me socorre são algumas poucas fotos, preenchendo esse vazio de lembranças. Recordo cheiros da casa de minha avó, ouço os passos no sótão que abrigavam os enormes baús pretos de lata muito grossa e alças e fecho dourados. As luzes que entravam pelas janelinhas quadriculares brilhavam na superfície lisa e negra daqueles enormes caixotes que guardavam relíquias sem valor para crianças - o que valia era a curiosidade de espiar dentro, de onde exalava o forte cheiro de naftalina.
O pomar da casa de dois pavimentos era enorme, abrigava vários pés de frutas, muitas plantas e arvorezinhas ornamentais, além de um galinheiro onde eu subia para colher as goiabas que minha avó adorava - e ovos frescos para os bolos que fazia!
As janelas tinham grades de ferro que faziam desenhos assustadores quando a tarde morria, era um castelo que a menina imaginava que de dentro, um dia fugiria. Reveladora essa sensação, mas não naquela época infantil. Ali eram celebradas as datas importantes, quando reuniam-se tios e primos, e os natais eram barulhentos aos pés do pinheirinho que piscava suas luzes coloridas.
O sabor daquele tempo tem a forma da maçã - a comi diariamente por cinco anos, que me lembre. Hoje levo meses pra sentir vontade de comer uma. Saturada fiquei da fruta, mas nunca das sensações. O guarda-pó branco era o uniforme do grupo escolar, tinha pregas tão bonitas, adorava usar. Ia a pé para a escola, e muitas vezes na volta, acompanhada de outras crianças arteiras, tocava campainhas das casas e saía em desabalada corrida. Os moradores já não se importavam, viam as crianças e poucas vezes ralhavam.
Nesse tempo era permitido às crianças fazerem desenhos, colorir, subir em árvores, brincar de casinha, de bonecas, de carrinho, rolimã, contar histórias e montar cidades inteiras com tijolinhos de madeira. As vovós faziam geléias e pães caseiros, que cheiravam na casa inteira quando a fornada ficava pronta.
Criança não participava do mundo adulto, mas tinha um mundo infantil. A inocência era testemunha dos olhinhos curiosos que observavam os mais velhos namorar, espiando os beijos roubados quando dar as mãos na sala, a namorar, já era quase pra casar!
Esse tempo foi dando lugar às curvas que o corpo foi ganhando, os sapatos subindo no salto, o esmalte colorindo as unhas e os lábios ganhando cor e brilho. Junto da infância foram ficando sonhos, brincadeiras, descompromisso e liberdade. Os cheiros dessa infância estão envoltos naquela naftalina, protegidos na memória que reterá esses tesouros, para serem divididos com os netos que já começam a chegar. Definitivamente, a infância à maturidade deu lugar!

24 comentários:

Priscila Lima disse...

heee... saudade não tem como se explicar, ahh se pudessemos voltar!
Deixo aqui um convite para visitar as conchinhas...
Parabens pelo seu blog!
Abraço
Priscila Lima.

Jeanne disse...

Que susto! Pensei que eu tinha escrito este post,rsrsrs
Fiquei MUITO emocionada, sou eu, exatamente eu, até os cabelos loiros e fininhos, a casa da avó, o cheiro de pão, o galinheiro...
Doces recordações Denise, obrigada por compartilhar.
Beijos :)

Denise disse...

Oi Priscila. Fico feliz com tua visita, vou lá sim!!

Não podemos voltar no tempo, mas as lembranças nos pertencem pra sempre, que bom né??
Abraço pra vc tb!

Denise disse...

Nem sei o que me deu Jeanne, quando vi...saiu!!
Acho que a saudade não se explica mesmo, então, cedi a ela - naturalmente!
Que delícia nossa infância, amiga...fiquei feliz por provocar boas lembranças em vc, mesmo sem saber.
Bjo carinhoso pra ti!

Cida disse...

Tudo lindo demais, a começar pela foto da Dakota que é uma fofurinha.

Ai como você despertou minhas saudades!!!
Eu tinha uma avó (paterna, pois a materna não cheguei a conhecer), que era a ternura, sabedoria, aconchego, doação, gentileza, etc, etc, etc..., tudo numa só pessoa.
Ela marcou demais a minha vida, e se eu um dia significar para a minha neta, pelo menos a metade do que ela significou prá mim, já me darei por satisfeita.

Quanto aos cabelinhos loiros e fininhos...me identifiquei total...:)

Bjsssssss

Cid@

Nádia Dantas disse...

Essas doces lembranças sempre nos remetem às nossas próprias. Adorei o texto, Denise. Beijos :)

Denise disse...

Ela parece muito, sabia? até o nariz...rs

Esta minha avó tb era paterna - com quem vivi por alguns anos. Não era tão doce qto a sua, mas era muito especial. Uma mulher corajosa, que deixou um legado muito forte. E minha infância, recordações lindas, com direito a um corte "radical" de cabelos, na altura das orelhas...rsrs

Beijos com cheiro de saudade, amigavó!

Denise disse...

Olá, Nádia! Quanto tempo...que bom te receber aqui, e dividirmos as boas sensações da infância.
Bjos

Regina Rozenbaum disse...

Ah neimmmm Dê...assim não vale nauuuummmm... Já tô que sou pura emoção (depois explico no Divã), chego energizada, abençoada e gratificada por mais esse dia/noite que o PAI me presenteou e ainda vou dormir com uma beleza dessas... Saudades da minha mãe... do regaço, das palavras - sempre benditas - do cheiro e do sabor daquele AMOR! Mesmo não podendo voltar no tempo, há dias que gostaria de fazê-lo só um cadim... Lembranças a gente carrega na alma e saudades para muito além dela!
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Denise disse...

Essa saudade tua, minha amiga, desconheço, embora a imagine. Algumas lembranças são tão vivas que parecem fatos atuais, tamanha a nitidez dos detalhes que afloram em nosso aparelho sensor, captando sons, cheiros, texturas, imagens, até gosto na boca vem! E o desejo de poder reviver as cenas é maior do que o prazer de recordar...que pena que lá não dá pra gente voltar...mas que bom que temos tantas riquezas pra todo sempre lembrar! (e aqui estou eu a rimar, mesmo que seja a improvisar...rs)

Depois vou ao divã tua emoção conhecer, como faço sempre, contigo aprender e...quem sabe na bolsa trazer, já que posso um container encher...(vou dormir - hora de me recolher, pq hj em rimas a conversa parece que tende a ser...rsrs)
Bjo procê, queridona!!

Tati Pastorello disse...

Ainda bem que esta criança dos cabelos loiros e finos ainda habita em você, mesmo que apenas na lembrança, com cheiro de naftalina e pães assados pela avó. Lindo texto! Delicado, profundo, bom de ler!

Tem selinho prá você lá no blog. Beijos.

ValériaC disse...

Oww florzinha...que delícia de memórias...um convite a cada um de nós voltarmos no tempo e carinhosamente saborear tantas e tão doces lembranças...

Beijo no teu coração!
Tenha um lindo final de semana amiga!
Valéria

Denise disse...

Oi, Tati!
Olha, essa menina que mantenho viva dentro de mim, sempre barulhenta e sapeca como em criança foi, tem garantido muitas horas felizes pra Denise adulta. Jamais vou deixar que ela envelheça...nós duas seguiremos juntas, uma cuidando da outra - a menor aqora conta com um bebê pra brincar...o neto que empresto pra ela exercitar sua alegria perene!

Vou lá ver o presente que ganhei, obrigada, querida!
Bjos pra vc!

Denise disse...

Pois é Valéria, muitas vezes é o toque que precisamos pra saborear as doces lembranças que temos, alimentando-as para que jamais deixem seu lugar!

Bjo carinhoso pra vc!

Zezinha Sousa disse...

Querida, seu texto me levou ao passado, uma deliciosa viagem à casa da minha avó tão querida e a uma infância livre e feliz. Obrigada,
Bjinhosss!!!!

manuel marques disse...

"A saudade é a memória do coração ..."

Jinho e bom fim de semana.

Úrsula Avner disse...

Ah os cheiros da infância... São tantos e tão diversos... Também tenho saudades deles... Bons tempos que não voltarão mas que ficarão marcados em nossa mente e coração. Bj com carinho Denise e obrigada por sua amável presença em meu cantinho.

Úrsula

Denise disse...

Ah! que legal querida, se colaborei pra essa viagem no tempo, onde vc reencontrou as doces sensações da menina Zezinha...fico feliz!

Beijos pra vc!

Denise disse...

Há anos essa frase do Coelho Neto me acompanha, Manuel! Bacana vc a trazer...

Bjinhos e um ótimo fds pra vc tb, amigo!

Denise disse...

Úrsula, quem sente prazer em estar por lá sou eu, pode acreditar!
As boas lembranças povoam nossas vidas, elas são o colorido da existência, né não? que bom que valorizamos isso!
Bjo carinhoso pra vc tb!

Rejane-Enajer disse...

Minha amiga linda e talentosa, estou bem ligeirinho passando por aqui para deixar um bjão e dizer que estou me cuidando e que adorei sua presença na minha " ausência".
Amiga, este post mexeu muito comigo viu? do meu passado de criança lembro muito pouco(memória seletiva né, grande psi?)e tenho poucas fotos da época .Felizmente ou infelizmente(não sei)eu não sinto saudades desse tempo.Na verdade, para minha defesa pessoal,eu não me tornei uma pessoa nostálgica-Amémmmm!!
Um bjaãooooooooooo

Tais Luso disse...

Oi, Denise, linda tua narrativa, aliás pessoas de uma mesma geração têm infâncias semelhantes. Tenho saudades de minhas bonecas, de brincadeiras de apertar as campainhas dos apartamentos e dar no pé! Por quê ? Até hoje não sei, mas que era uma delícia...Era! Hoje tenho a sensação de que não existe mais infância; existem crianças querendo, rapidamente, se tornarem adultos. Hoje não avaliam o sabor de poderem ser crianças: uma verdadeira criança.
Adorei teu texto, acredito que muitos se identificaram aqui. E sentiram saudades de uma época que ficou mais do que marcada: cada um ficou com seu registro de saudade.

Meu carinho
Tais luso

Denise disse...

Oi Rê, isso mesmo, se cuide bem pra "voltar com tudo"...
Memória tem muitos aspectos a considerar - armazenamos, resgatamos e esquecemos...processo natural da vida (se minha avó me "ouvisse", emendava: morro abaixo, né minha filha???...rs)

Importa que não te faz falta, e que não ficou nostálgica. Amém!!...rs
Fica boa logo, teu bom humor é fundamental pela blogosfera!
Um bjão, queridona!

Denise disse...

É verdade Tais, muitas semelhanças, inclusive dos sentimentos que as lembranças provocam. Em alguns momentos a saudade, que aprendi, é sempre boa, chega de mansinho e lhe abro a porta, permitindo que corteje meus recantos e provoque meus "ais" - suspiros de quem guardou o que viveu...

Retribuo o carinho, que é recíproco!
Beijos!