“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


28 de jun de 2016

Armadilhas contra a paz




Um áudio maravilhoso - acompanhado do texto - pra gente pensar sobre o cultivo das emoções mais densas. Num mundo onde o ódio parece crescer numa proporção sem precedentes, é importante parar pra pensar o que estamos fazendo com nossa saúde física e emocional, com o que temos alimentado o corpo e o espírito. 
Se já caiu nessa armadilha, acorde! Paz e bem!





"Guardar ressentimentos é como tomar veneno e 
esperar que a outra pessoa morra." 

William Shakespeare

28 de junho





Vó, não sei como são essas coisas de vida e morte, mas hoje, no dia em que a senhora chegou nesta dimensão há muitos anos atrás, sempre lembro da Senhora, mais do que em janeiro, quando partiu. Seus três filhos deixaram este mundo material em tempos diferentes, assim como quando chegaram, então não sei como “funciona” suas permanências em outros lugares ou voltas para cá, por isso prefiro acreditar que neste ano tem outra vez seu caçula junto das meninas, e que isto torna uma festa completa a reunião de vocês quatro. Não tenho desejado respostas para estas dúvidas espirituais que acho naturais para quem ainda não viveu a passagem para nenhum outro estágio, tenho observado que se acomodam mais e mais, meus sentimentos em relação aos amores que a gente ganha para toda a eternidade, ainda que se vão antes de nós. A Senhora foi o que meu espírito infantil reconhece como mãe, deixou em mim marcas e ensinamentos que me acompanham ainda hoje, sem falar nos valores que construí a partir de seus olhos – por tudo que teceu parte importante de meu caráter, da minha personalidade, este meu jeito de ser, lhe sou de infinita gratidão. A mulher madura há muito aprendeu a reconhecer - respeitar e admirar- nos silêncios e ausências de sorrisos, as dores e as superações que viveu. A criança não entendia, mas eu compreendo e até me identifico com algumas dessas dores. A senhora foi exemplo de amor, dedicação infinita à família, e um pouco desse legado eu desconfio que peguei pra mim...
Sinto hoje uma saudade pluralizada, cheia de imagens, cheiros e sons. Sinto falta da minha Baixinha em muitos momentos felizes que certamente iríamos compartilhar, em todos os difíceis que me sinto mais só... sinto falta do meu pai, carrego uma vontade imensa de mais um abraço, só mais um... sinto falta da tia com sua família numerosa e reuniões tão gostosas... sinto falta de coisas da minha infância, que me remetem sempre à você, minha avó Esther. 
Hoje meu carinho, minha melhor energia de amor e a saudade mais bonita são pra vocês que, quero crer, estão juntos, e olhando por todos nós...

22 de mai de 2015

Meu quarto neto!


Os pares de sapato são das crianças! 

E ele está a caminho, o quarto menino que vai se aconchegar neste coração de avó - já bem treinado a amar sem medida - e com nova emoção acolherá a mais um neto pra tomar conta de vez deste coração que se expande a cada novo pedacinho de mim que chega!!
Brincando, digo que agora terei uma quadrilha... rsrs ... mas será um quarteto bonito porque guardará suas individualidades e a intimidade de cada um com esta avó que dá acesso livre ao seu coração, acolhendo sem mistérios cada um destes milagres que faz da vida uma aventura feliz demais!
Já anseio pelo teu rostinho conhecer, teu corpinho banhar, teu choro acalmar, teu sono velar, tuas mãozinhas pequenas segurar. Sei que logo minha voz você vai reconhecer e que teus olhos sorrirão quando me vir chegar. Sei que seremos grandes amigos, que muitos dengos, beijos e abraços vamos trocar. Vamos trocar a noite pelo dia, transformar em uma linda magia os momentos em que juntos vamos viver.  Sei que o meu colo será o balanço gostoso, meus braços um porto seguro e minhas histórias vão te ninar. Sei também que vai correr em minha direção, que abrirá a boquinha pra comidinha que a vovó fará com amor, vamos ter festa na escolinha, bolo com velinhas pra soprar, brincadeiras no tapete da sala, bola no corredor e cabeças juntinhas no travesseiro naquele soninho de um domingo preguiçoso, que vai custar pra passar – graças a Deus!
Sei ainda que um dia você crescerá tanto que vou ter que olhar pro alto pra te enxergar, mas por mais que tuas pernas te levem pra longe pra teus sonhos alcançar, nunca, nunca mesmo, nosso amor há de faltar!
Te espero com a alegria de quem já antecipa tua chegada porque conhece esse encontro, porque bem sabe sobre esse amor, porque falta você meu neto querido pra acontecer a explosão completa em meu mundo de amor, um mundo azul onde vai rabiscar o teu nome, fazendo do céu o limite pra esta avó apaixonada pelo quarteto mais precioso desta vida.

Amo você, bebezinho!

5 de mar de 2015

Inabalável fé...

O esplendor da vida está onde os olhos duvidam...nos pedaços soltos do quebra-cabeças da vida...

4 de mar de 2015

" A Mulher Madura"

Estamos na semana que antecede o dia Internacional da Mulher. A tenho homenageado por onde passo. Aqui não seria diferente. A imagem escolhida também é uma forma de homenagear Irene Ravache, pelo simples motivo que a admiro imensamente!



A Mulher Madura
Affonso Romano de Sant'Anna


O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

(15.9.85)

Texto extraído do livro "A Mulher Madura"