“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


8 de dez de 2007

Passando a vida a limpo


Retomar as rédeas da existência requer rever a vida, passá-la a limpo.
Usando duas analogias, esse exercício fica mais concreto.
Quando escrevemos rapidamente, fazemos anotações numa folha qualquer, e depois vamos repassá-las com capricho. Revisando o texto, excluímos os erros e o construímos com melhor sentido e mais coerência. Passamos a limpo. Não é diferente quando paramos para analisar o que já vivemos.
Organizar os muitos anos de vivência é tarefa difícil quando o fundamental não é somente relembrar, mas entrar num processo de revisão, percebendo tudo que precisa ser deixado para trás sem negar-lhe a existência. Desfazer-se do que não cabe mais no presente não é negar o passado, mas despedir-se do “velho”, dos sentimentos e fatos que deixaram de fazer parte da realidade presente.
Este olhar sobre o ontem deve ser desprovido de mágoa e ressentimentos, procurando preservar e proteger tudo aquilo que foi e já não é mais. É validar a vida guardando bem aninhado no peito tudo que existiu e importou, todas as situações, pessoas e sentimentos envolvidos. É deparar-se com a verdade da vida e separar com amor o joio do trigo, deixando para trás o que trouxe momentos tristes sem nunca esquecer daqueles que preencheram o coração de alegria plena. Todos os momentos ruins ensinaram a viver, e todos os bons fizeram a vida valer a pena.
Compreender e aceitar que um ciclo se fechou, uma página virou, mudou a estação, é resignificar a vida. Rever a vida e passá-la a limpo também é conservar o sentido da existência que começou a ser escrito lá atrás, mas é ordenar as palavras na folha em branco que inaugura outra fase. É transcrever em letras graúdas o texto novo, ponderando cuidadosamente quais palavras excluir e quais manter para dar sentido à frase. É escrever uma nova história, com novos personagens, outras situações, sentimentos, atitudes e desejos.
Há, porém, quem faça diferente. É como levar na oficina o carro para reparar um disfuncionamento qualquer que acende no painel uma luz vermelha. O mecânico, quando não identifica o defeito, sugere que se retire do painel a peça que acusa o defeito, sem sanar a causa. É uma temeridade permanecer com o carro rodando, mas uma opção de seu condutor. O mesmo pode ser feito com os problemas, negando-lhes a existência, tratando com displicência a vida. A luz não acusa a presença do defeito, no entanto, sabe-se que ele continua lá, mas é mais cômodo prosseguir a viagem, numa total negação do perigo.
Passar a vida a limpo é um ato de coragem. E coragem é competência que poucos têm, porque ser corajoso implica em responsabilizar-se por sua parcela de comprometimento ou descaso, reaver-se com suas limitações e escolhas, atitudes ou falta delas. Passar a vida a limpo é olhar dentro de si com verdade, amorosamente, aceitando o término das estações, reunindo força e determinação para transformar o velho em novo. É reescrever o texto com cuidado para não jogar fora o que viveu, recapitulando carinhosamente a vida. É não ignorar a luz vermelha e continuar vivendo uma mentira. Passar a vida a limpo é acolher com amor as valiosas experiências vividas, deixando ir o que acabou num gesto nobre e maduro. É o desapego que abre mão da cômoda, mas falsa sensação de segurança. É virar a página acreditando na construção de novas experiências que darão sentido à vida. É abandonar o velho e entregar-se ao novo, mergulhando corajosamente.

♥ Denise

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