“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


1 de dez de 2010

A complicada arte de ver


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta...os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam...mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.(grifo meu)

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas."

Rubem Alves


18 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

ReginaRozenÓtima é bauuuummm dimaiiisss da conta sô! Como adivinhou: ameiiii! Cadê esse moço? Eu desisti de escrivinha pra esse homi de D'US, sumidim, sumidão dessa blogosfera (desde a úrtima festa que num teve rsrs)
Quanto a Rubem o que dizer...carece de mais nada nauuuummmm!
Quanto a Dê... que o PAI continue iluminando esses olhinhos - mais amorosos - que enxergam, captam e partilham conosco para muito além das linhas, entrelinhas...tecelã de primeira grandeza!!!
Beijuuss moça linda de viverrr n.c.

Marli Borges disse...

É bem como diz Quintana: "Tem gente que passeia num bosque e só vê lenha para a fogueira"!
Quanto tempo menina! Vim matar a saudade.
Bjssssss

Cristina disse...

Denise
Que bela reflexão! Olhar além, treinar nossos olhos para ver além das aparências. Já percebi também isso em minha vida, muitas vezes eu vejo o que outros não conseguem enxergar e vice versa. O importante é estar com a alma e a mente aberta para que consigamos ver a fragilidade e a beleza da vida! Um abraço!

Ivana disse...

Denise,
Tem pessoas que são sensíveis e MUITO observadoras, então para elas: -“O que os olhos não veem o coração não sente, mas o que os olhos veem o coração sente e muito!”.

Muito bonito seu texto, gostei muito das citações, uma delas que eu destaco é do IPÊ que a senhora mandou cortar para não sujar mais sua calçada.. Um abraço!

RESILIÊNCIA disse...

Denise

Lindo... magnífico.
E como não bastasse, temos você, nos brindando com tamanha sabedoria, e nos fazendo ver tudo de um outro ângulo.
um grande abraço

(Não estou conseguindo comentar através do meu computador)

Regina Coeli disse...

Bom dia minha Querida Menina,

Estou de volta depois de alguns dias fora e desde de ontem estou me inteirando das acontecências já que onde estava não acessei a NET...
Acredito que estamos vivenciando experiências bem parecidas...
Já havia selecionado esse belíssimo texto do RUBEM ALVES (de quem sou TIETE) para postagem no FAZ DE CONTA.
Vir visitá-la significa compartilhar de boa colheita, de tesouros preciosos, de água que sacia a sede...
Muito obrigada minha querida por tornar mais leve a caminhada!!
Já aceitei seu DESAFIO e logo postarei minhas colocações.
Agradeço por colocar-me entre suas escolhas.
Com doçura e com afeto,
Regina Coeli

Ivana disse...

Denise,
Seu texto é tão bom que me fez repensar sobre meu olhar sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre o mundo. É na cegueira que encontramos o que há de melhor em nós. Quando enxergamos com olhos de bondade e agradecimento( sem classificações e rótulos) nos sentimos felizes porque nos sensibilizamos com a beleza que não vemos, mas sentimos; a beleza interna das pessoas através de um gesto de amizade, de carinho, etc. Esse texto me ajudou a ter uma visão diferente principalmente das pessoas, obrigada. Um ótimo final de semana, com carinho!

Tais Luso disse...

Oi, Denise, certas coisas são óbvias para uns e não para outros. E como disse J.Ruskin, há um público diferente para cada quadro e para cada livro...
Depende de quem olha o quê. Muito boa postagem e muitas verdades que, infelizmente não achamos em todos.
beijo e meu carinho, amiga.
tais luso

Denise disse...

Amém! Amém! Ai, Rê...a síndrome do TMA (Tô me achando) tá passando pra cá...rsrsrs.
me fez lembrar de uma coisa que acho linda e desconheço a autoria, mas cabe direitinho aqui:
[Obrigada pela amizade que você me devota, por meus defeitos que você nem nota - por meus valores que você aumenta - por minha fé que você alimenta - por esta paz que nós nos transmitimos, e por este pão de amor que repartimos...]

Então, nosso amigo Julio tá numa correria doida, mas feliz que só ele...e eu, por eles, claro!

Uma ótima semana, queridona...bjos grandes, de saudade!

Denise disse...

É verdade Marli, os olhos têm de ter a essência amorosa para traduzir ao coração o que ele vê sim, e sente.

Saudade mesmo, estava/estou em meio a encerramento de ano, viagens, gripe forte, filhos/neto & Cia em casa...não sobra tempo pra quase naaaada, mas eu vou te visitar e matar a saudade, prometo!
Boa semana, querida!
Bjo com carinho!

Denise disse...

Vc é um exemplo bonito disso, Cristina - teus olhos têm aprendido a te dar visões bonitas e diferentes, levando ao coração tudo que vc precisa pra perseverar e comemorar vitórias importantes...Deus permanece te abençoando, te desejo Luz nesse caminho de aprendizado.
Bjos com carinho e admiração!

Denise disse...

Oi Ivana...eu desconfio um pouco dessa máxima...mesmo não vendo, meu coração sente tantas coisas - pressente, se põe em alerta, vibra, canta...sei não...rs

Rubem Alves fez uma junção maravilhosa de pensadores, concordo. E vc, sensível, se permitiu ser tocada pelas mensagens que ficam desse texto tão perspicaz ao dirigir-se para nós, seres falíveis, mas que podem aprender/mudar e ganhar com esses ensinamentos.
Uma semana fantástica pra vc, querida.
Bjos

Denise disse...

Ari, meu querido amigo - vc sim, sempre me brinda com tuas reflexões profundas. Devo ter bastante leitura pra atualizar, vou até o Resiliência, já, já - sinto falta quando sou obrigada a ficar "longe"

Obrigada pelas tuas palavras repletas de carinho, tirando o exagero, o "resto" eu aceito...rs

Um beijo pra vc, com afeto e carinho!

Denise disse...

Regina, só pode ser mesmo com doçura tudo o que vem de vc!!!! Me deixou emocionada e feliz...e posso perfeitamente fazer das tuas, as minhas palavras - teus posts encantam e enriquecem a gente!!
Eu acho que Rubem Alves tem uma facilidade imensa em falar de assuntos sérios com sabedoria e clareza, gosto demais dele tb.

Que bom que aceitou, assim podemos gte conhecer um pouquinho mais. Vou passar lá pra ver, tá bom?
Um enorme e aconchegante abraço, recheado de meu carinho e afeto!!!

Denise disse...

Oi Ivana, como me deixa feliz saber que, mesmo sem ter uma intenção direta, minha escolha te trouxe esse aproveitamento - mas na verdade, vc sabe que escolhemos/dizemos o que precisamos saber/lembrar/ouvir...rs

Desejo que permaneça nesse caminho novo, beneficiada pelo crescimento que sentirá chegar, a cada dia.
Um abraço carinhoso pra vc!!!

Denise disse...

Olá, Tais, que alegria é te receber aqui, sempre!
Concordo com Ruskin, os sentidos são o que temos iguais e não poderiam ser mais diferentes.
Tuas observações sempre enriquecem o assunto, obrigada pela contribuição sempre preciosa e amiga.
Uma ótima semana, bjos com carinho!

JOE ANT disse...

O que eu mais gosto é...

Conseguir ver para além das lágrimas que o cartar cebola me provoca.

(mesmo que não seja nada de bom!)

Denise disse...

Deve ser pq esse contato é o mais verdadeiro, não é Joe? (quando é bom, fica fácil, né?)
Bjos