“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


3 de ago de 2010

Despedida


Achei que este momento seria mais fácil. A gente tem essa defesa pronta, achando que está preparado pra viver o inevitável. No caminho pra casa, percebi que teria de abandonar tudo que conheço sobre o assunto, ficando apenas com essa ardência no peito, uma espécie de soluço preso, talvez um grito - porque suspiro profundo não é, esse escapou em todas as vezes que foi preciso ensaiar a força, a robustez do gesto que preferia deixar os braços escorridos ao longo do corpo, inertes, como ela...
A natureza é caprichosa, como disse meu tio, tira de nossa mente a incompreensão da morte, o medo da despedida, o adeus pra sempre - e pra sempre é tempo demais, como anunciou sua filha.
Talvez tenha sido neste instante que a emoção se apoderou com toda sua força disfarçada em entendimento sobre esta viagem que, aparentemente, nenhum de nós escolhe fazer.
Olhei para os lados me detendo em cada rosto marcado pelo tempo, a família numerosa que parece estar sofrendo baixas com muita freqüência. Quando cheguei no rosto sofrido da minha mãe, algo se moveu dentro do meu peito, uma batida desritmada abriu uma porta qualquer que vem guardando essa informação, e o ímpeto de abraçar o corpo frágil e pequeno quase me fez correr pela sala cheia da capela.
Seus olhos de dor pareciam negar o que viam, e seu coração amoroso relutava em separar-se desta irmã tão companheira de jornada. Não sei se ocorreu a ela, mas parecia pensar que as intermináveis conversas ao telefone deixariam um vazio que não saberá preencher tão cedo. Continuando o passeio silencioso, ao seu lado o companheiro de uma vida toda, demorei-me observando os cabelos ralos e alvos, olhar vago, um pouco alheio ao mundo que o cercava.
Abraçada em mim, minha prima me disse que eu não conhecia aquela sua dor, e não conheço mesmo, mas palpitou aqui, quando os olhos do coração encontraram aquele par.
Precisava sair daquela letargia, vencer aquele princípio de medo, trancar essa porta. Movi-me devagar, até que os braços amparassem o corpo miúdo, alquebrado por mais esta perda. Aconcheguei minha mãe enquanto sentia o coração se espremer, lutando contra um desconhecido mal encarado e muito ruim...
Afastei aos poucos o pensamento, deixando flutuar as lembranças, que foram se enchendo do riso alto e gostoso que aquela mulher de estatura mignon recheava nossas reuniões de família. Parecia mentira aquela imobilidade e rigidez cercada por flores, velas e lágrimas. Acabou seu sofrimento, e mais uma etapa das nossas vidas, de agora em diante sem seus docinhos de festa e sua voz terna em cada momento que notava a tristeza em alguém. Todos sentirão a falta da "moça mais bonita da cidade", e eu que cresci entre suas palavras afetuosas e gestos de carinho explícito, nunca mais a ouvirei chamar sua Vera Fischer...
Lei natural da vida? Sim. Dói? Muito...

34 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

Aiiii Dê... Desse engasgo...lágrimas (abril de 2009) sou:
APRENDIZ DA DOR
DOR QUE DÓI
QUE MEXE E REMEXE
COM O CORPO E COM A ALMA
QUE CONTA COISAS SOBRE MIM
QUE EU SABIA
E NÃO SABIA QUE SABIA
AGORA SEI
DE UM JEITO DOÍDO
O QUE NÃO QUERIA SABER!
Recebe, minha amada, meu coração partilhado nessa dor...
Beijuuss em sua alma

www.toforatodentro.blogspot.com

Ivana disse...

Oi Denise,
Dia muito triste não é minha amiga? Ainda mais quando se tinha uma tia tão especial como a sua. Que Deus na sua infinita bondade reconforte todos da sua família; principalmente seu tio, que nesse momento vai precisar muito.

"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace."
Victor Hugo

O tempo ameniza a dor, experiência própria.

Fique com DEUS e meus sentimentos.

RESILIÊNCIA disse...

Denise

Despedir não cessa uma convivência, não finda um existir...inicia-se uma ausência, uma eterna vontade, um indelével desejo, uma infinita vicissitude de ter em retorno o que se amou e partiu.
De tudo ficou o amor, e tudo valeu...
Que as lágrimas rolem face abaixo...de saudade.
Mas que a alma... serena permaneça em silencio... esperando o encontro.
Meus sentimentos.
um grande abraço

Marilu disse...

Minha querida perder um ser tão especial, faltam palavras e sobra tristeza. Perdi a minha mãezinha também de uma maneira muito sofrida...e dói demais...Beijocas

Rosani disse...

Querida Denise!

nunca estamos preparados para separação de quem amamos, mesmo que seja algo natural. compartilho com voce esse momento.


beijos

neli araujo disse...

Denise querida,

Sinto muito, amiga!

Estas despedidas são necessárias (lei natural da vida, como você mesma falou) mas, sempre muito sofridas...

Um beijo solidário no seu coração, linda!
Um carinho para sua mãe!
Neli

Tati Pastorello disse...

Oi Dê, sinto muito por sua perda. Sei dos medos que vem associados, senti o mesmo ano passado, com a morte de minha tia e o sofrimento de meus primos.
Bela homenagem que você escreveu. Sua tia viveu uma vida linda, deixa uma bela história. A saudade fica como uma oportunidade de recordar e mantê-la viva em vocês. Força e um beijo com muito carinho.

Bloguinho da Zizi disse...

Querida De
Momentos inevitáveis...
Mas assim é e assim temos que viver, assimilando a lição.
As lembranças que ficam são marcantes e em breve, sorrisos saudosos se manifestarão no rosto dos que agora deixam suas lágrimas correr.
Que haja paz em teu coração e que essa mesma paz se expanda a todos os teus.
Com carinho
Zizi

manuel marques disse...

Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida ...

O meu abraço de carinho .

Cristina disse...

Realmente a dor da perda é uma dor silinciosa e triste de viver. Já vivi essa dor muitas vezes. A saudade se faz companheira do caminho, caminho difícil de trilhar. Como seres humanos sempre iremos deparar com essa finitude. Que Deus dê consolo à vc e sua família! Um abraço!

Rejane-Enajer disse...

Ai amiga, vim te dizer que estou voltando ( com muita moderação) e me deparo com este triste relato ...Os meus mais profundo péssames minha querida!! como conheço esse
momento ,essa dor, essa perda... ler teus escritos é mexer com meu baú de saudades- choro a minha dor entendendo a sua. Como especiais docinhos serão insubstituíveis heim?! sei muuuito bem o que significa isso- eu tenho um tal de salpicão ...
É muito dura a realidade não é?!!por isso precisamos de um pouco de ilusão e fantasia para encararmos a vida, senão, a vida fica muito sem brilho e alegria.
Com esta experiência, só nos resta aprender a procurar ser feliz a todo tempo, degustando cada segundo com as pessoas que nos são importantes pois a vida passa muito rápida e ninguém está aqui para sempre.

Fica com Deus minha querida!! um grande beijo no seu lindo coração minha amiga linda VERA FISCHER.


Estou aqui para o que vc precisar.
Rejane

Cigana do Oriente disse...

Oi amiga, tudo bem com você? não entendi bem o texto, mas espero que você esteja bem, dê notícias
beijos

Adelia Ester Maame Zimeo disse...

Denise Querida, meu abraço acolhedor e carinhoso neste momento de dor. Paz Profunda a você e a ela! Beijo. Meu afeto. P.S. Muito Grata por seu carinho em meu aniversário ao fone e em meu blog.

Ivy disse...

Toda despedida é triste, mas essa é a mais terrível de todas...

Bjs, amiga, que seu final de semana seja de paz!

Daniel Ven Friend disse...

Também sou um cara em busca de um maior entendimento de tudo que me cerca e o que sou de verdade. A solisão as vezes são esses espinhos que quando voltamos descalços, machucam nossos pés impiedosamente.

Isadora disse...

Minha amiga momento difícil esse de despedida daqueles que amamos e que nunca estamos preparados para passarmos.
Receba o meu carinho para sua família.
Um beijo

Denise disse...

Que lindo Rê...apesar de tão triste, fala do que senti ao visualizar láááá na frente, sabe? Eu não queria saber, mas já sabia...

Receber teu carinho é como sentir uma brisa que sopra devagar, como o afago de um abraço que não tem pressa em se soltar...obrigada minha amada, sei que partilhar comigo essa tua dor, foi doído. Bjo na alma amiga, irmãs no sentir...

Denise disse...

Ivana, minha querida, duplamente obrigada pelo carinho, o aconchego das tuas palavras e cuidado foi mais que reconfortante. De coração, obrigada!
A gente supera a perda, e vai ganhando forças para as que ainda não aconteceram...
Muito lindo o pensamento de Victor Hugo, não conhecia. As almas estão entrelaçadas, com toda certeza.
Que o tempo faça seu trabalho, e amenize logo a dor.
Bjos, minha querida. Me comoveu teu cuidado, muito, muito obrigada!

Denise disse...

Que lindo Ari, é isso mesmo meu querido poeta, ficam sempre as marcas do amor, que tudo compensa.
Estamos em um momento mais contemplativo, de recolhimento, mas cônscios de que a vida segue, e ela está bem. Estarei sempre por perto deles, de forma a emprestar o ombro amigo e dar o colo e o abraço que precisam.

Muito obrigada, meu amigo. Teu carinho me conforta e alegra. Estou com saudade de teus textos maravilhosos, vou passar lá depois.
Um grande e forte abraço!!

Denise disse...

Ela era Marilu, e a gente só sente consolo pq entende que o sofrimento dela, enorme, acabou. E tb pq sabemos que a morte é uma passagem - ou a vida, né?

Obrigada pela carinhosa visita.
Um ótimo domingo, bjos pra vc!

Denise disse...

Obrigada pelo carinho, Rosani.
Como eu disse no início do texto, achava que estava preparada, pq desejava que cessasse seu sofrimento. Mas a gente nunca parece pronto pra lidar com essa despedida "pra sempre"...
Bjos pra vc, minha querida!

Denise disse...

Neli, minha amiga querida, obrigada pela solidariedade do teu gesto amigo.
Um enorme abraço, cheio de meu carinho.

Denise disse...

É bem assim, né Tati, só compreende bem o que o outro sente, aquele que semelhante experiência viveu. Foi muito difícil, mas a vida se encarrega de recompor as emoções e seguimos adiante...

Muito obrigada minha linda, pelo beijo. Senti o carinho chegar, forte, até mim. Retribuo com a mesma intensidade, com gratidão e afeto.

Denise disse...

Tuas palavras tão sábias amenizam qualquer dor, Zizi. Muito obrigada por lembrar-me do seguimento natural da vida e seus ciclos vitais inevitáveis. A dor da separação faz parte do aprendizado, e a gente não deve esquecer.

Grata pela tua presença amiga e de Luz, reconfortante e carinhosa.
Ótimo domingo, beijo com afeto!

Denise disse...

Nem me fale, Manuel. Esta, foi assim. Uma perda dolorosa e reveladora.

Muito obrigada pelo carinho, pude senti-lo a envolver-me!
Beijos.

Denise disse...

Olá, Cristina, que bonitas - e verdadeiras - tuas palavras. A finitude é uma provação humana, que a alma não prova.

Muito obrigada pela visita e pelo carinho da mensagem. Um abraço bem quentinho, pra retribuir vc.
Um ótimo domingo!

Denise disse...

Ah, Rê, só vc pra me fazer rir, amiga. Ainda hj eu comentei que nunca mais seria chamada de minha V.F. e chego aqui...rs...obrigada querida, teu carinho é evidente nesse gesto.

A cada reunião sem "aqueles" docinhos, vou lembrar que tem um tal de salpicão por aí...nosso baú de saudade, né amiga?

Que bom tê-la de volta, mesmo que com moderação, tava com saudade docê!
Beijo carinhoso, e muito obrigada pelas tuas palavras, tá queridona??

Denise disse...

Oi, Isa. Eu estou bem sim.
Sabe o que é, escrevi o texto no domingo passado, que faleceu minha tia. E essa perda mexeu muito comigo vendo meus outros queridos ali presentes...como meus pais...as emoções me dominaram, e escrevi pra me sentir mais parto delas (emoções) e dos meus queridos, além de homenagear minha tia querida - que nem eu sabia ao certo o quanto queria!

Obrigada pelo carinho, um ótimo domingo pra vc.
Beijos

Denise disse...

Adelia, querida, obrigada, falar com vc é sempre bom, e aniversário é data especial que não dá pra falar só pelo blog, né minha querida. Tb adorei falar com vc.
Minha gratidão pelo carinho.

Beijos e saudade!

Denise disse...

Obrigada Ivy, é terrível, mas não só inevitável, como necessária. Já estou voltando ao estado original, que é do entendimento, mas a saudade já se pronuncia...

Ótimo domingo, beijo carinhoso minha amiga!

Denise disse...

Olá Daniel, vejo que gostou do meu cantinho, prestou atenção em detalhes...desejo que a caminhada te mostre o que deseja enxergar e entender.
Grata pela visita, volte quando desejar, é bem-vindo aqui!

Denise disse...

Obrigada Isadora, carinho recebido, com gratidão e alegria pela tua presença amiga. Te encontrar aqui é sempre muito gostoso.
Um grande beijo e o desejo de um domingo maravilhoso.

Julio Cesar disse...

[quantas e quais pessoas terei ainda que sofrer 'a perda' para provar-me?]
(...)
Denise... não sei se sou pessoa certa para dizer algo em momentos como esse. Em verdade...sou muito mais de choro...porque emoções em mim falam mais que palavras.Muito mais. Paradoxo foi que quando meu pai 'resolveu' ausentar-se fisicamente (sem espiritualidade aqui...ok?)para sempre, em 1987, eu então com 24anos, filho, amigo, devoto e parceiro profissional e de todas as horas de lazer e afins, não verti uma só lágrima. Choro contido?não creio.Luto não construído?talvez. O fato é que sofrera por demais nos ultimos 15 dias e eu não queria vê-lo mais nesse estado...quase subhumano, para o meu bel prazer em comparecer às visitas e 'matar' minha saudade carnal, em que meus sentidos absorviam mais 'alimento' para o meu 'ser'. 6 anos depois, aos 39 anos...a aids (provavelmente contraída em pelo sangue recebido em uma cirurgia) levou de forma sofrível e repentina meu INCRÍVEL irmão...músico(da melhor espécie),um artísta em que ganhar dinheiro não transitam na mesma composição, boemio, contador de exímia capacidade. Aqui...as lágrimas vieram...mas tempos depois...e por longos períodos. Ainda choro ao som de certas canções. No entanto...eles não se foram de mim (ainda que 'tenham' tentado).Vivem no carater, nas virtudes, no pensamento deles inseridos em mim. Sei exatamente o que meu pai responderia ante a qualquer indagação minha...e ainda o faço, se preciso. Sua voz interior ecoa em um 'canto' que apenas eu posso escutar (e não é esquizofrenia!!!)."ver" meu pai vivo basta circular por alguns pontos de SP. "ver" meu irmão vivo é ir a algum rock-bar...em que suas crõnicas e histórias de canções e frases musicais fluirão junto com a música.
Assim, Denise, ainda que não abraçe, sinta o perfume, ouça em alto som audível (mas ouça em baixissima frequencia por trabalhos de suas sinapses), ainda que seu paladar não prove mais dos docinhos...Essa Pessoa Querida viverá com você...enquanto você viver...
Doer?Doi...mas encontrará o caminho de transforma-la. Eu encontrei...e tu és mais capaz.
bjs
Julio

Denise disse...

Julio, o carinho não tem forma específica e definitiva. Mas quase sempre envolve sentimentos e sensibilidade, e isso, meu querido, te sobra!

Não tenho eu muito a acrescentar às tuas ricas e lindas observações, só a agradecer pelo carinho e ser solidária - apesar de não ter vivido as mesmas perdas, descubro que todas doem, e imagino que pai e mãe, ainda mais; então avalio sem achar que sei o que sentem, mas pelo prenúncio de meus sentimentos já conhecidos...

Obrigada, meu amigo querido, pelo teu carinho de sempre.
Abraço cheio de afeto pra vc! (vale tanto um abraço, né??)