“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


23 de jun de 2010

Estação das Perdas



Há horas em nossas vidas que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio...
Questionamos o porquê de nossa existência e nada parece fazer sentido. Concentramos nossa atenção no lado mais cruel da vida, aquele que é implacável e a todos afeta indistintamente: as perdas do ser humano! Ao nascer, perdemos o aconchego, a segurança e a proteção do útero. Estamos, a partir de então, por nossa conta. Sozinhos. Começamos a vida em perda e nela continuamos. Paradoxalmente, no momento em que perdemos algo, outras possibilidades nos surgem. Ao perdermos o aconchego do útero, ganhamos os braços do mundo. Ele nos acolhe: nos encanta e nos assusta, nos eleva e nos destrói.
E continuamos a perder. E seguimos a ganhar.
Perdemos primeiro a inocência da infância. A confiança absoluta na mão que segura nossa mão, a coragem de andar na bicicleta sem rodinhas porque alguém ao nosso lado nos assegura que não nos deixará cair. E ao perdê-la, adquirimos a capacidade de questionar. Por que? Perguntamos a todos e de tudo. Abrimos portas para um novo mundo e fechamos janelas, irremediavelmente deixadas para trás. Estamos crescendo. Nascer, crescer, adolescer, amadurecer, envelhecer, morrer, renascer?
Vamos perdendo aos poucos alguns direitos e conquistando outros.
Perdemos o direito de poder chorar bem alto, aos gritos mesmo, quando algo nos é tomado contra a vontade. Perdemos o direito de dizer absolutamente tudo que nos passa pela cabeça sem medo de causar melindres. Assim: se nossa tia às vezes nos parece gorda tememos dizer-lhe isso. Receamos dar risadas da bermuda ridícula do vizinho ou puxar as pelanquinhas do braço da avó com a maior naturalidade do mundo e, ainda, falar bem alto sobre o assunto. Estamos crescidos e nos ensinam que não devemos ser tão sinceros.
E aprendemos. E vamos adolescendo. Ganhamos peso, ganhamos seios, ganhamos pêlos, ganhamos altura. Ganhamos o mundo. Neste ponto, vivemos em grande conflito. O mundo todo nos parece inadequado aos nossos sonhos... Ah! E os sonhos!!! Ganhamos muitos sonhos Sonhamos dormindo, sonhamos acordados, sonhamos o tempo todo. Aí de repente, caímos na real! Estamos amadurecendo. Todos nos admiram. Tornamo-nos equilibrados, contidos, ponderados. Perdemos a espontaneidade. Passamos a utilizar o raciocínio, a razão acima de tudo. Mas, não é justamente essa a condição que nos coloca acima dos outros animais? A racionalidade, a capacidade de organizar nossas ações de modo lógico e racionalmente planejado?
E continuamos amadurecendo. Ganhamos um carro novo, um companheiro, ganhamos um diploma. E desgraçadamente perdemos o direito de gargalhar, de andar descalço, tomar banho de chuva, lamber os dedos e soltar pum sem querer... Mas, perdemos peso!!! Já não pulamos mais no pescoço de quem amamos e tascamos aquele beijo estalado... Mas, apertamos as mãos de todos, ganhamos novos amigos, ganhamos um bom salário, ganhamos reconhecimento, honrarias, títulos honorários e a chave da cidade... E assim, vamos ganhando tempo, enquanto envelhecemos. De repente percebemos que ganhamos algumas rugas, algumas dores nas costas (ou nas pernas), ganhamos celulite, estrias, ganhamos peso...e perdemos cabelos. Nos damos conta que perdemos também o brilho no olhar, esquecemos os nossos sonhos, deixamos de sorrir...
Perdemos a esperança. Estamos envelhecendo. Não podemos deixar pra fazer algo quando estivermos morrendo... Afinal, quem nos garante que haverá mesmo um renascer? Exceto aquele que se faz em vida, pelo perdão a si próprio, pelo compreender que as perdas fazem parte. Mas, que apesar delas, o sol continua brilhando e felizmente chove de vez em quando. Que a primavera sempre chega após o inverno, que necessita do outono que o antecede...
Que a gente cresça e não envelheça simplesmente. Que tenhamos dores nas costas e alguém que as massageie. Que tenhamos rugas e boas lembranças. Que tenhamos juízo, mas mantenhamos o bom humor e um pouco de ousadia. Que sejamos racionais. Mas, lutemos por nossos sonhos...
E, principalmente, que não digamos apenas eu te amo, mas, ajamos de modo que aqueles a quem amamos, sintam-se amados mais do que saibam-se amados.
Afinal, o que é o tempo?

Por Aila Magalhães

17 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Lindo texto para se começar o dia, Denise.
Te desejo paz.
Sou grata
Alzira

Malu disse...

Apesar de não gostarmos das perdas elas nos são necessárias, às vezes, não é mesmo, Denise?
Deixo um beijinho

ValériaC disse...

Denise querida, que bonito texto...
A vida é feita de escolhas e com elas, perdas e ganhos são as conseqüências...desde sempre e por todo nosso passar pela vida, cabe a cada um de nós, valorizar cada momento, cada sentimento, cada pessoa e fazer o tempo que pouco a pouco se vai, ser o melhor possível...sempre...que sejamos capazes de aprender com as perdas e se alegrar muito com tudo o que "ganharmos".

Doce dia pra ti amiga!
Beijinho
Valéria

Denise disse...

Olá, Zizi!!

Perder para ganhar parece um paradoxo, mas é inevitável - e algumas "trocas" são maravilhosas, compensadoras e altamente realizadoras. Isso faz valer a pena viver!

Beijos e muita paz!!!

Denise disse...

É Malu, necessárias embora algumas sejam mais dolorosas, entretanto, passada a "tempestade" do instante, a gente descobre que depois da fúria vem a calmaria, e que o que "perdemos" deu lugar a um ganho enorme. Quase sempre demoramos para trocar os sentimentos provenientes da perda, pelos recompensadores, do ganho - mas como é bom quando o coração alivia e a alma se eleva, feliz!!!

Bjos, amiga. Volte sempre!

Denise disse...

Doce Valéria, esse aprendizado custa a chegar, mas ao longo do processo viver a gente vai aprendendo, fortalecidos seguimos mais seguros - vigilantes sempre, e as superações servindo de esteio para a caminhada.

Que façamos das adversidades, as pontes para chegar a um lugar melhor - e melhores!

Beijo carinhoso!!

Zé Carlos disse...

Denise, você é uma linda.
Cada matéria que vc posta é melhor do que outra, magnífica esta aqui.

Obrigado pela sua visita querida, fico feliz quando você aparece.

Beijão do Zé Carlos

Denise disse...

Idem, idem, ZCarlos!!!...rs

Bjão!

manuel marques disse...

A vida, por fim, não passa de um hábito que se tem de perder, depois de todos os outros ...

Beijinho.

Denise disse...

Essa verdade é a do grand finale, né Manuel? mas que antes que se aproxime esse momento, a vida seja plena - de amor em lugar da dor!

Bjos

Cida disse...

Realmente, para subir a um novo patamar, temos que nos despedir do anterior. Às vezes, isso é feito naturalmente, mas outras, com muito sofrimento.
Sabemos (mas como é duro aceitar), que não se pode ter tudo na vida. Com as mãos cheias, não há como receber um novo presente.
Mas o tempo (esse sábio), nos ensina a lidar com as trocas, e aprender a manter pelo menos uma mão vazia, para poder receber os "novos presentes", e seguir em frente enfrentando os novos desafios com um sorriso nos labios.

É apanhando muito sol e muita chuva, que uma fruta amadurece.

Um beijo e tenha um excelente final de semana.

Cid@

Denise disse...

Sábia amiga, disse tudo - e o fez bonito!! Adorei!!!

Um maravilhoso fds pra vc tb, amigavó!
Bjão

Julio Cesar disse...

PARTE I--- (hj consegui!...rs..)

Oi Denise...

como sabes, minhas olheiras ainda estão 'despertas' e com elas não me sinto tão a vontade para fixar-me tanto nos textos e em telas. (Deve ter havido um grito de alegria por parte daqueles que torcem o queixo ante meus longos comentários!rs....-não em seu blog-
Assim, como sabe, faço uma varredura pelo texto antes de 'penetrar' nele...e fisguei só algumas coisinhas hoje (joias devem ser tratadas como tal) e ler-lo-ei outras tantas vezes ainda.(hoje ainda passei a tarde apurando testes WISC..aff...quaaanta tabela!)
(...)
Vou falar, mesmo não estar certo do cerne do texto, mas, ao comentário da Cida, apoio aquilo que começava a formar-se em texto.

"sol e chuva amadurecem a fruta"...e assim é que, longe de ganhar cores quentes ainda, vou amadurecendo. Nesse processo, a duras ensolações entendi que não perdemos.... nada perdemos. Como dissera em outro post, tudo aconteceu (e acontece) exatamente como teria que acontecer, na melhor forma do melhor geito para que hoje sejamos o que somos, ou não seriamos esse Eu e seriamos OUTRO. Não existe um EU de dois geitos. O que vivenciamos em nossa história e nosso social é o que nos compõem.

em palavras da Cida:
" para subir a um novo patamar, temos que nos despedir do anterior. Às vezes, isso é feito naturalmente, mas outras, com muito sofrimento. "

Que LIIIINDO ISSO....e Vou adotar(Cida, não vai cobrar Royaltes por isso, não é?)

"despedir"

Isso!...não é uma perda, mas um despedir-se. Perda é para aqueles que, mais, queriam tirar algum proveito e 'perderam' a chance, como acontece em um relacionamento,em um emprego, seja de qual via esteja a ótica.
Nascemos sós. Morreremos sós. Até mesmo os gemeos! Somos classificados como INDIVÍDUOS, quer alguns gostem ou não. O que acontece com nossas vidas é que 'damos a sorte' de em alguns momentos (que podem ser alguns minutos, horas, dias, meses, anos) nosso caminhar funde-se a outro e aí caminhamos juntos. Mas essa não é a regra. A regra é estar só apesar de sermos seres para vivermos socialmente (um paradoxo da natureza -pensem divina ou terrena, já que isso é outro mérito-).
Se as pessoas percebecem que ao inves de dizerem 'perdi' algo dissessem 'ganhei' algo, dariam muito...mAS MUUUUUITO mais valor para aquilo que ganharam e suas vidas seriam infinitamente mais felizes. No amor, por exemplo, hoje...do 'ficar' ao 'cuido da minha vida', sim, porque não só os jovens estam banalizando as relações, e somente a eles é dado esse demérito.

Julio Cesar disse...

PARTE II ----


O 'alguem' que está do nosso lado é um 'grande prêmio' para nós ou é a futura 'perda'? "ele se foi...eu o perdi!..isso é perda!".
Se olhar para o que ainda poderia vir, até pode ser...mas, não pode vir de outra via?...
e, se pensar que foi-se, mas o que foi vivido foi um presente, um prêmio para sua vida, merecidamente aproveitado...e bom para ser relembrado, recordado, sem patologia, então não será uma perda, porque ninguem perde o que já teve ou o que está no passado.
A grande perda é perder a chance de ser feliz por ficar pensando na perda.

Sabias palavras (ainda mais porque tem mais sintese do que eu!rs..)

"Sabemos (mas como é duro aceitar), que não se pode ter tudo na vida. Com as mãos cheias, não há como receber um novo presente."

Fazemos escolhas, mas não façamos descartes.

"Mas o tempo (esse sábio), nos ensina a lidar com as trocas, e aprender a manter pelo menos uma mão vazia, para poder receber os "novos presentes", e seguir em frente enfrentando os novos desafios com um SORRISO NOS LÁBIOS."

...dissestes: a vida é curta. É sim...e muito mais curto ainda é o tempo que passamos com quem amamos, sejam os pais, conjuges,filhos, irmãos, amigos... pensar em 'perda' não nos faltara adjetivo para qualificar.

(percebeu de onde vem a minha felicidade e alegria em te conhecer, não?!rs... então brindemos...ãã...tá bom, escolha:
café ou chocolate e bebamos junto.
tim tim. com Caloroso e cafeinado abraço e beijo)
JUlio

Regina Rozenbaum disse...

Dê, moça linda de viverrr, amada!
Ontem (quarta) tentei entrar e ler a postagem mas não consegui. Realmente tudo haver com minha Estações da Vida e não conhecia... Me lembrei de uma citação de Graham Bell: " O que é esse poder, eu não posso dizer. Tudo o que sei é que ele existe e está disponível quando você se encontra naquele estado mental que sabe EXATAMENTE o que quer e está plenamente determinado a não desistir até conseguí-lo."
Beijuuss n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

Denise disse...

Como 'uma coisa puxa a outra', Graham Bell tem uma citação que cabe em qualquer estação das perdas...ele disse: "quando uma porta se fecha outra se abre; mas nós quase sempre olhamos tanto e de maneira tão arrependida para a que se fechou, que não vemos aquelas que foram abertas para nós." ...e saímos tantas vezes andando para a frente, mas olhando para trás...quanta vida temos de viver até entender uma coisa tão simples, né amiga??

Bjo carinhoso. Adorável tua passagem, sempre!!!

Denise disse...

Julio, meu querido, acho que vc falou de superação, assim eu entendo esse movimento do "despedir-se", deixando para trás o que não existe mais - não cabe, esvaziou-se, cumpriu seu tempo, perdeu sentido - e a "partimos" para outra estação, seguindo a vida.

Quanto à banalização, a vida foi trazendo uma realidade que beira ao descartável, e acho que tanto jovens como maduros, vivem a atualidade nesse frenesi - perda de tempo, valores e do dia de hoje. Pra falar do mínimo...

A nossa amiga Cida foi primorosa na frase - que já foi imortalizada por este cantinho! Tb miencantei...rsrs