“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


22 de mai de 2011

Sobre a amizade


Compartilho com você, porque também ...



De uma amiga ganhei nesta semana, o maravilhoso arranjo que você vê ilustrando esta postagem, de outra, o livro A riqueza do mundo, de Lya Luft, de onde extraí o capítulo 18 - Sobre a amizade.





"Que qualidades a gente deve esperar de alguém com quem pretende ter um relacionamento amoroso?", perguntou o jornalista. Incrível as perguntas que nos fazem.
Respondi o que acredito: "Aquelas que se esperaria do melhor amigo."
Pode ser um bom critério. Não digo de escolha - pois amor é instinto e intuição -, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se distrair.
O resto, é claro, no amor seriam os ingredientes da paixão, que vão além da razão e da sensatez, passageiro terremoto de delícias que faz tudo valer a pena, que promove os maiores erros e os melhores acertos. Salva-nos eventualmente de um desacerto irremediável a sensação que vem das entranhas, ou das tripas da alma, ou do inconsciente: o nosso instinto de sobrevivência.
A velha misteriosa intuição, que às vezes falha nessa onda de euforia e susto.
Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu.
Falo daquela pessoa para quem posso telefonar não importa onde ela esteja, nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: "Estou mal, preciso de você". (Ainda não tive que recorrer a isso, mas, se precisar, sempre haverá alguém, e isso me conforta.) E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.
A boa amizade nos poupa muita inquietação, desconfiança e ciúme. Não precisamos sondar nossas tripas, interrogar nosso inconsciente, para ter um amigo e confiar nele. Em geral um olhar bom, uma conversa sossegada ou interessante, pequenas maneiras de alguém novo se instalar na nossa vida,
Com sorte, para alguma alegria.
Com cuidados, para sempre.
Com alguma sabedoria, sem drama.
Está ali, o amigo, a amiga. presença apaziguadora e ao mesmo tempo interessante, aquela dos diálogos intermináveis, das confidências, dos telefonemas às vezes só pra jogar conversa fora, dar risada, e iluminar o dia.
E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar, nem compreender, nem perdoar, nem fazer malabarismos sexuais, num inventar desculpas, nem esconder rusgas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo fantástico e tão exigente (quando não tedioso, o que é de assustar).
Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e algumas reais amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar. Algumas estão comigo há décadas, outras são recentes, e houve alguma que, nem sei mais por que motivo, me descartou (ainda me dói quando recordo).
Minha alegria vem daquelas para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, também tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Com uma dessas amizades posso fazer graça ou fazer fiasco, chorar, eventualmente dizer palavrão quando me irrito ou quando esmago o dedo na porta. (ou sempre que me der vontade).
A amizade é um meio-amor, sem algumas das qualidades dele, mas sem o ônus do ciúme - o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. É par rir junto, dar o ombro pra chorar, criticar (com delicadeza, por favor), é pra apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar no minuto seguinte, sem ter que dar explicação alguma.
Sem cobrança.
Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair pra pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com os dela, ou até se não tem criança naquele colégio.
Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se sente a última das mulheres, levou fora do namorado, o marido foi grosso, qualquer coisa dessas, e ele chega confortando, chamando de "minha gatona" mesmo que a gente esteja um trapo.
Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: "Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta". O marido morreu, os filhos seguiram suas vidas, e ela ficou num desertos em oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça.
Mais de uma vez queixou-se, mas nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. Que amigos não são frutos do acaso: são cultivados com...amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método, sem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes falta nem luz nem espaço nem afeto.
Quando em certo período o destino havia tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, quase o sentido de tudo, foram amigos, amigas - e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos - que seguraram as pontas.
(Eram pontas ásperas aquelas.)
Com eles, sem grandes conversa nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, e reavivou-se em mim, para sempre, o valor da amizade.
Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, amigos e amigas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada - porque às vezes eu sou tudo isso, ah sim.
Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, ás vezes intrometido e irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna ou vai estar lá para nós, ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulsos e abrigo, e nos faz ser melhores.
Quem sabe por isso velhos casais se tornam até fisicamente parecidos: porque na cumplicidade de uma relação que não perdeu todo o encanto, mas preserva interesse e diferenças, permaneceu entre eles, com jeito de amizade, um bom amor.



Obrigada Bia, obrigada Cris!

20 comentários:

Bia disse...

Maravilhoso o texto e a postagem! Vc é uma pessoa especial com certeza. Beijusssssssssss

Denise disse...

A gente vê-se, reconhece-se no outro, minha amiga ESPECIAL!
Amo vc!
Bjos

Marilu disse...

Querida amiga, belíssimo texto. Tenha uma linda semana. Beijocas

R. R. Barcellos disse...

- Há pessoas que têm talento para encontrar gemas preciosas, perdidas entre a copiosa ganga de textos inúteis ou insípidos que pululam por aí. Você, minha bela garimpeira, é uma dessas. Parabéns!

Bloguinho da Zizi disse...

Minha querida De
Os presentes são de merecimento.
Esse texto, humm.... sou prova viva, do calor dos amigos, conhecidos ou não, próximos ou não, presentes em minha vida ... sim ... muito presentes.
Nesta fase de saúde um apoio que me deixa em pé, reta e com sorriso, mesmo que num certo ponto a dor insista em me lembrar que ela existe. Mas entre as gargalhadas, os e-mails, as orações tudo isso fica muito pequeno.
Os amigos de casa, marido e filhos, tão presentes, tão solícitos (perigo,rsrs), quanta benção!

Grandes riquezas, que jamais nenhum dinheiro poderá comprar. Amores/amizades
amigos/eternidade
partes da minha felicidade.

Você é parte integrante de tudo isso.
Gratidão

Denise disse...

Bom dia, Marilu!
O texto veio pronto, literalmente embrulhado pra presente, de encontro ao que eu penso e sinto sobre amizade. Compartilhá-lo só dependeu da digitação...

Boa semana pra vc tb, bjos!

Denise disse...

Rodolfo, à parte tua generosa observação, folheando meu presente, meus olhos caíram nesse capítulo - tanto quem me presenteou, como o momento do presente, celebravam a amizade, comemorando a vida e suas nuances inseparáveis de nós. Foi mais do que representativo, além de vir ao encontro com meus sentimentos sobre amizade. Compartilhei com quem tiver apetite para degustar dessas palavras sábias.

Um beijo, meu querido.

Denise disse...

Zizi, amada minha, nada que eu acrescente deixaria tuas palavras mais fortes na demonstração de afeto e amizade que sustenta a gente nos momentos mais difíceis, e que provocam tanta alegria nos momentos bons. Que tua colheita seja farta nessa missão nova, dedos cruzados, braços dados e corações batendo no ritmo de festa!!!
Bjo carinhoso, feliz e AMIGO!

Regina Rozenbaum disse...

Ah minha irmigamada...bem disse que era um texto especial. Dessa importância, especialidade que a gente não compreende...só sente pela presença (e nem é ao vivo e a cores rsrs). Que acolhe e recolhe pedaços da gente em pura amorosidade...e eu sigo daqui...agradecendo a ELE por, finalmente, ter estabelecido nosso Rê_encontro! AMOTE lindona.
Beijuuss n.a.

Denise disse...

Que bom que o leu/sentiu, Rê.
A simplicidade das palavras tece a amizade como a vejo, reparto e vivo.
Tenha uma semana cheinha de momentos preciosos, daqui vai o abraço amigo, grandão, pra acolher-te, recolher-te e aconchegar-te!

Bjãozão, amada minha!

Valéria disse...

Oi Denise!
Admiro muito Lya Luft!
Ela escreve com o coração! ter amigos realmente apazigua os ais, reconforta... É um porto seguro!
Bjo e excelente semana!

Cristina disse...

Denise
Amizade é tudo de bom. Penso o que seria de mim sem meus amigos. E o interessante é que cada um a sua maneira me traz algo de bom. Graças à Deus tenho muitos amigos e você é uma delas e me enriquece com seus lindos textos. Uma boa semana para você repleta de alegrias! Bjssssssss

Denise disse...

Concordo Valéria, amigos são tesouros preciosos.
Uma ótima semana pra vc tb.
Bjo

Denise disse...

Ah, Cris, vc é um doce!
O que o coração inspira, a alma aplaude, pq sabe que "aquilo" é precioso.
Obrigada pelas palavras tão lindas, um super e carinhoso abraço, minha amiga valente e querida!

Malu disse...

Você é uma pessoa que sentimos ser muito querida e ESPECIAL...
Sempre a nos presentear com palavras cheias de afeto e carinho.
Grande abraço, amiga!

Kimbanda disse...

Para o amor a amizade está como as fundações para uma construção.

Difícil expressar sentimentos em palavras que passem a mensagem. Sentir é bem mais fácil para quem não domina a facilidade de expressão.
Na amizade como no amor a antecipação do gesto que surpreende pela positiva, realiza... sabe bem!

Kandandos meus, inté...

Ana Cris disse...

Dê, estou surpresa de como este capítulo deu frutos!! Sinto que eu coloquei uma sementinha, mas foi vc quem espalhou as flores ao vento, selecionando um texto tão significativo para este momento que estamos vivendo. Foi por um pedido do Bruno que entrei na livraria... e de repente, sem plano algum, me deparei com este livro, e me veio vc no pensamento, imediatamente... que coisa mais estranha... Acho que vou comprar um destes prá mim também. Bjo grande.

Denise disse...

Malu, querida, tuas palavras são sempre gentis, mas agradeço o carinho, feliz!
Um beijo, bons sonhos!

Denise disse...

Amigo Kim, tuas observações expressivas disseram tudo. De pleno acordo!

É uma alegria te encontrar aqui, viu?
Bjo grande, ótimos sonhos!

Denise disse...

Cris, minha amiga querida, boas semeaduras dão bons frutos.
Eu tb achei o capítulo perfeito.
Agradeça ao Bruno pela inspiração, e desfaça-se da estranheza, ficando com a boa surpresa e a ideia de que nada acontece ao acaso...
Amo vc!
Bjos