“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


27 de nov de 2010

Homem e circunstâncias




" Eu sou eu e minhas circunstâncias."
José Ortega Y. Gasset


Recebi esta citação, que me levou até esta crônica, escrita pelo jornalista gaúcho Pedro J. Bondaczuk, radicado em Campinas há anos. Sua escrita causou-me forte impressão, motivo pelo qual a compartilho com vocês.



Homem e circunstâncias

A vida é uma sucessão de desafios (incontáveis) e de oportunidades (escassas). É um desfile de tragédias e de comédias, de alegrias e de tristezas, de vitórias e de derrotas. Enfim, é caracterizada por uma imensa diversidade de situações e de conseqüentes reações face a elas.
Vivemos contínuos paradoxos. O psicólogo Milton de Oliveira caracteriza, no livro “Energia emocional – base para gerência eficaz” (Makron Books Editora), com precisão esse nosso comportamento paradoxal, ao assinalar: “Somos a unidade na diversidade. Somos a diferença da igualdade – iguais no macro e diferentes no micro. Em linguagem poética, somos originais do lugar-comum, vencedores triunfantes da tragédia humana, organização complexa das energias caóticas do universo.”

Ou seja, podemos ser semelhantes a milhares, milhões, quiçá bilhões de pessoas que vivem ou já viveram, mundo afora, desde a criação do homem, mas jamais iguais. Cada um de nós tem uma personalidade, uma identidade única, pessoal, característica, que depende da nossa origem, educação, conformação biológica e do meio em que vivemos, entre outras tantas coisas.

Até hoje, por exemplo, não foram encontrados, em época e em lugar algum, dois gêmeos idênticos que pensassem de forma rigorosamente igual ou que reagissem da mesmíssima forma aos vários estímulos, físicos e/ou psíquicos, a que fossem submetidos.
Embora óbvio, é mister destacar que semelhança não implica em absoluto em igualdade. Somos originalíssimos, mesmo que venhamos a ter aparências e vidas rigorosamente iguais a alguém. O filósofo espanhol, José Ortega y Gasset, caracterizou bem a diversidade de situações que temos que enfrentar com a famosa afirmação: “Eu sou eu e minha circunstância”. Esta (ou estas, já que elas são várias) é mister reiterar, pode (ou podem) ser até “parecida” (ou parecidas) para todos, mas jamais é igual (ou são iguais).
O que o eminente e polêmico pensador pretendeu com essa declaração – objeto de inúmeros estudos, artigos e ensaios – foi particularizar os problemas do homem. Nosso sucesso ou fracasso na vida dependem da forma com que equacionarmos as nossas circunstâncias. Destaque-se que a afirmação de Gasset tem um importante complemento, raramente citado. A citação completa é: “Eu sou eu e minha circunstância. Se não salvo a ela, não salvo a mim”.
E como assegurar essa “salvação”? Mudando a realidade, em vez de se submeter, passivamente, a ela. Quem não tem capacidade, vontade e determinação para fazer essa mudança, paga, via de regra, um preço altíssimo, em termos de frustrações, decepções de toda a sorte, mágoas, tristezas e fracassos. Ou seja, se afundará na circunstância e não dará sentido algum à sua vida.

Gasset admite que há várias maneiras de mudar uma realidade adversa. Mas ressalta que o caminho mais simples e mais seguro para essa reversão é melhorando a própria educação, no sentido mais amplo que se possa dar ao termo e, por conseqüência, o nível cultural. Ou seja, é ampliando, ao máximo, o raio dos seus conhecimentos sobre tudo e sobre todos e, principalmente, sobre si próprio. O autoconhecimento, frise-se, é fundamental (embora infinitamente mais complicado).

O cerne do pensamento filosófico de Gasset é que “aquilo que importa ao homem, antes de tudo, é a lucidez e a compreensão do mundo.” Afinal, esta é a forma que nos é facultada de mostrar (e de exercitar) nossa humanidade. Só compreendendo onde estamos, com quem vivemos, como cada parceiro dessa aventura reage e quais são nossas alternativas, podemos modificar as circunstâncias adversas ou, principalmente, extrair o máximo das que nos sejam favoráveis.
Há quem confunda a circunstância, citada por Ortega y Gasset, com destino. Ocorre que este, de acordo com os deterministas, não poderia jamais ser alterado. Quem pensa assim garante que todos nascemos com rígidas trajetórias pré-traçadas, que seriam imutáveis. Estão equivocados. Somos dotados de livre-arbítrio. Temos a prerrogativa das escolhas e arcamos com suas conseqüências. Já o cerne do pensamento do filósofo é o de que toda e qualquer situação que nos ocorra na vida é sempre passiva de mudanças, desde que estejamos, claro, aptos e determinados a mudar essa realidade.

8 comentários:

manuel marques disse...

muito bom texto.

São as circunstâncias que determinam a causa ...

Beijinho e bom fim de semana.

Jeanne disse...

Penso que todos são aptos, determinados a mudar já é mais complicado. Tem que sair da zona de conforto...
Não é fácil, mas podemos sim, mudar a realidade a todo o momento, penso inclusive que esta atitude é uma das mais belas formas de agradecer a Deus pelo dom da vida, desde que a mudança seja para o bem, é claro...
Beijos

Cacá disse...

Que maravilha de reflexão, Denise! Eu costumo dizer que eu sou as minhas idiossincrasias. E também acho que se eu não administrá-las, elas me derrubam a humanidade. E quem acha que somos uma peça do destino é quem não consegue esta administração de suas circunstâncias (talvez por não ter uma compreensão mais abrangente da vida). Então jogam as contas de tudo para o destino. Na psicologia diz-se que aquilo que não conseguimos resolver, empurramos para o destino resolver por nós. Muito bom vir aqui, sempre. Meu abraço. paz e bem.

Regina Rozenbaum disse...

Quem sou eu para dar pitaco no meio de Titãs...só colocando um graveto rs: Se quisermos continuar defendendo a existência de algum eu, que seja em trânsito. Fugaz. Um deixar de ser. Nosso corpo, num instante de existência no mundo, é radicalmente singular. Nada será absolutamente igual. Assim, toda a relação que mantemos é com o diferente, com o resto do mundo. Esse mundo com o qual nos relacionamos nos transforma! Daí, podemos inferir que, na relação, esse mundo determinou em nosso corpo uma passagem, do que éramos para o que nos tornamos. Como estamos sempre em relação, nosso corpo está ininterruptamente passando de um estado a outro! Essas passagens, que nos constituem, instante a instante, não se equivalem. Podem ser valoradas. A partir de um critério: nossa essência, nossa potência de AGIR!!!
Vixi, isso não foi um graveto, foi uma tora rss Desculpa...
Beijuuss amada n.c.

Denise disse...

...ou causam as conseqüências...

Um ótimo domingo, meu querido amigo Manuel - beijo pra ti!

Denise disse...

Concordo Jeanne, nem todos têm a determinação, mas muitas vezes a vida sacode a zona de conforto e empurra pra ação, não é amiga?

Viver é estar nessa permanente mudança.
Um domingo maravilhoso pra vc, bjo com saudade!

Denise disse...

Olá, Cacá - tuas observações enriquecem meu espaço e ajudam no meu Tecer. Dificuldades individuais creditadas ao 'destino que resolve' não podem ser vistas como última alternativa, talvez representem a momentânea incapacidade de resolução, apenas.
As idiossincrasias nos distingui, e isso faz a saudável diferença - que bom, né?
Muito bom ter vc aqui!
Meu bjo e o desejo de um ótimo domingo!

Denise disse...

E que tora incrível desceu aqui!!!
Somos o resultado dessas mudanças que nunca acabam, retomamos um Eu que está acrescido de novidades a cada dia, a cada evento, somado, multiplicado, ampliado, nunca menor ou dividido - fragmentos de aprendizado nos fazem inteiros!
Essa questão rende uma crônica, facinho, facinho...rsrs
A profundidade das reflexões revelam até onde já andamos, não pé assim Rê? então, te aplaudo - e agradeço pelo pitaco/graveto/tora...rs
Bjãozão, minha querida!