“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


23 de jul de 2010

Quando me tornei invisível.



Já não sei em que data estamos. Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas. Me recordo daquelas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse conta, eu me fui apagando também....

Primeiro me trocaram de quarto, pois a família cresceu. Depois me passaram para outro menor ainda com a companhia de minhas bisnetas.

Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram, e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas.

Mas tudo bem...

Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.

Noutra tarde dei-me conta que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem. Às vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade.

Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então cheia de tristeza me retiro para meu quarto e vou beber minha xícara de café.

E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem e venham buscar-me e me peçam perdão... Porém, ninguém vem....

Quando meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil, lhe levei um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei a esperar que o tomasse, só que ele estava vendo televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença. O chá pouco a pouco foi esfriando...e junto com ele, meu coração...

Então noutro dia lhes disse que quando eu morresse todos iriam se arrepender. Meu neto menor disse: “Ainda estás viva vovó?” - Eles acharam tanta graça, que não pararam de rir. Três dias estive chorando no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e nem o bom dia me deu.

Foi então quando me convenci de que sou invisível...

Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo, me olhavam. Porém minha filha seguiu varrendo sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim.

Um dia se agitaram os meninos, e me vieram dizer que no dia seguinte nós iríamos todos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo!

No sábado fui a primeira a levantar-me. Quis arrumar as coisas com calma. Nós os velhos tardamos muito em fazer qualquer coisa, assim que adiantei meu tempo para não arrasá-los. Rápido entravam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro. Eu já estava pronta e muito alegre, permaneci no saguão a esperá-los.

Quando me dei conta eles já tinham partido e o carro desapareceu envolto em algazarra, compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não coubesse no carro, ou porque meus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque. Senti claro como meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar.

Eu os entendo, eles vivem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo.

Antes beijava os pequeninos, era um prazer enorme tê-los em meus braços, como se fossem meus. Sentia sua pele tenrinha e sua respiração doce bem perto de mim. A vida nova me produzia um alento e até me dava vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar. Porém, um dia minha neta Laura, que acabava de ter um bebê disse que não era bom que os anciãos beijassem aos bebês, por questões de saúde. Desde então já não me aproximo deles, não quero lhes passar algo mal por minhas imprudências. Tenho tanto medo de contagiá-los!

Eu os bendigo a todos e lhes perdôo, porque...‘que culpa eu tenho de ter me tornado invisível?’


Texto Original "El dia que me volvi invisible"

Autora - Silvia Castillejon Peral

Cidade do México-2002

*Imagem retirada da net*

8 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

Dê, moça linda de viverrr, amada!
Sabe, o texto conhecia, mas relendo-o aqui, percebo que existem olhos que enxergam o invisível... GENTE COM ALMA, alma de GENTE que tece idéias (ops ideias), ideias que tocam muitas almas fazendo visível o que até então era invisível. GENTE que sem pretensão, faz sua missão: desperta, do sono profundo, as tais "desalmadas".
Beijuuss ILUMINADOS n.c.

www.toforatodentro.blogspot.com

manuel marques disse...

Bom texto para reflectirmos sobre as modernices vazias de conteúdo e valores morais.

"A vaidade absorve-se na alegria que advém das mínimas vantagens pessoais, sem se dar conta dos verdadeiros valores morais ."

Beijo minha querida.

Bom fds.

Zezinha Sousa disse...

Querida, que belo texto, serve para uma séria reflexão. Lembrei da minha avó, mas ela era muito querida por toda a família, tudo girava em torno dela, seus conselhos e suas histórias encantavam a mim e a todos os netos e eram muitos. Tempos maravilhosos. É uma pena que essa não seja a realidade de todos os avós. O seu texto se aproxima muito do que vemos hoje. Um beijo enorme, minha linda!!

Denise disse...

Oi, Rê, tua observação me enche de alegria, pq compartilhar tem este propósito, ainda que sem qq pretensão - a gente nunca imagina qual coração vai se deixar tocar, mas certamente alguns estarão vibrando na mesma freqüência, e a conexão acontece...

A realidade desta história pode acontecer bem próximo da gente...tendo olhos pra ver, o coração percebe formas que não se revelam no mundo material - a visão mais importante que devemos ter do outro, não é assim, amiga?

Beijo GRANDE, mineirinha querida...

Denise disse...

Os nossos velhos (um dia seremos tb!) são muito desassistidos pelas suas famílias, Manuel. O texto descreve bem a situação indigna - a falta de amor a quem se doou tanto! Lembrei-me de uma metáfora interessante, acho melhor postá-la na seqüência, assim faz-se o link com esta...

Um ótimo fim de semana, amigo querido!
Beijo!

Denise disse...

Pois é, Zezinha, a autora retratou a dura realidade que assistimos nos nossos dias. Os mais jovens não conseguem aquilatar a própria realidade, que vai transformar o rosto sem marcas, o corpo esbelto, a agilidade...pq o espírito continua sendo amoroso, enxergando as pessoas, desejando ser útil, sentindo...a alma não envelhece, né?

Bjo carinhoso, minha amiga!

Ivana disse...

Olá Denise,

A cada linha lida desse texto um nó se formava na minha garganta...como pode quem nos deu a vida ser tratado com tamanha frieza e descaso?!!! O amor pelo nossos pais é algo natural, não consigo ver de outra forma, temos "obrigação" de cuidar deles caso eles precisem.
Eu daria tudo para ter meus pais comigo.

Um beijo e um ótimo final de semana.

Denise disse...

Pois é minha querida Ivana, esse sentimento nem sempre prevalece no dia-a-dia.
Sabemos que é difícil conciliar no cotidiano as tarefas e obrigações, com a família que formamos, mas...envelheceremos todos...disto, esquecemos! A metáfora da tigela mostra que o caminho pode ser o mesmo...

Que bom que dá pra refletir a tempo...e mudar o final da história, né amiga?

Beijos