“Planto flores no caminho para que não me faltem as

borboletas. Foram elas que me ensinaram que o casulo

não é o fim. É o começo."

Day Anne


2 de set de 2009

A TRANQÜILIDADE DAS OVELHAS



A noite estava escura, céu sem estrelas.

De vez em quando ouvia-se o uivo de um lobo bem longe, misturado com o barulho do vento. As crianças reunidas na tenda do Mestre Benjamin estavam com medo.

Mestre Benjamim sentiu o medo nos seus olhos.

Foi então que uma delas perguntou:

- Mestre Benjamim, há um jeito de não ter medo? Medo é tão ruim!

Mestre Benjamim respondeu:

- Há sim... E ficou quieto.

Veio então a outra pergunta:

-E qual é esse jeito?

-É muito fácil. É só pensar como as ovelhas pensam...

-Mas como é que vou saber o que as ovelhas estão pensando?

Mestre Benjamim respondeu:

-Quando durante a noite, as ovelhas estão deitadas na pastagem, os lobos estão à espreita. E eles uivam. As ovelhas têm medo. Mas aí, misturado ao uivo dos lobos, elas ouvem a música mansa de uma flauta. É o pastor que cuida delas e não dorme nunca. Ouvindo a música da flauta elas pensam:

Há um pastor que me protege. Ele me leva aos lugares de grama verde. E sabe onde estão as fontes de águas límpidas. Uma brisa fresca refresca a minha alma. Durante o dia ele me pega no colo e me conduz por trilhas amenas. Mesmo quando tenho de passar pelo vale escuro da morte eu não tenho medo. A sua mão e o seu cajado me tranqüilizam. Enquanto os lobos uivam, ele me dá o que comer. Passa óleo perfumado na minha cabeça para curar minhas feridas. E me dá água fresca para sarar o meu cansaço. Com ele não terei medo, eternamente... (Salmo 23, paráfrase)

Mestre Benjamim parou de falar.

Os olhos de todas as crianças estavam nele.

Foi então que uma delas levantou a mão e perguntou:

-E os lobos? Eles vão embora? Eles morrem?

-Os lobos continuam a uivar. E continuam a ser perigosos. O pastor não consegue espantar todos eles. E por vezes eles atacam e matam.

Mas as ovelhas, ouvindo a música da flauta do pastor dormem sem medo, não porque não haja mais perigo, mas a despeito do perigo. Não há jeito de acabar com o perigo. Mas há um jeito de acabar com o medo.

Coragem é isso: dormir sem medo a despeito do perigo...

As crianças voltaram para suas tendas e dormiram sem medo, pensando nos pensamentos das ovelhas.

De vez em quando, lá fora, ouvia-se o uivo de um lobo faminto.

Desde então, tornou-se costume contar ovelhinhas para dormir.




Rubem Alves, no livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”

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